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Cripto em Zonas de Guerra: Como Molda Conflitos, Evasão de Sanções e Ajuda Humanitária

Cripto em Zonas de Guerra: Como Molda Conflitos, Evasão de Sanções e Ajuda Humanitária
Polymarket Expands Prediction Markets Into Private Company Trading
Jane Omada Apeh
Last updated: 19 de junho de 2026 10:41
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Jane Omada Apeh
Published 21 de junho de 2026
Published 21 de junho de 2026
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Este artigo foi publicado originalmente no Deythere.

O papel das criptomoedas em regiões assoladas por conflitos e afetadas por sanções cresceu imenso. Entre 2025 e 2026, a utilização de cripto em zonas de guerra expandiu-se para incluir a evasão de sanções liderada por Estados, o financiamento de grupos armados e até mesmo uma tábua de salvação para civis e organizações de ajuda.

As principais conclusões revelam que intervenientes apoiados por governos, como na Rússia e no Irão, aumentaram significativamente o uso de cripto para contornar restrições económicas. Ao mesmo tempo, cidadãos comuns e grupos de ajuda na Ucrânia, Turquia, Síria e Venezuela dependem de ativos digitais para transações do dia a dia e doações. Os reguladores internacionais, contudo, estão a ripostar com novas leis e sanções sobre a infraestrutura cripto.

Evasão de Sanções Impulsiona o Uso de Cripto em Zonas de Guerra

As criptomoedas em zonas de guerra coincidem frequentemente com países sob sanções. Com base em relatórios, potências como a Rússia, o Irão e a Coreia do Norte utilizam ativos digitais para contornar restrições económicas. Uma análise recente da Chainalysis mostrou que entidades sancionadas receberam 694% mais cripto em 2025 do que no ano anterior. Isso representa 154 mil milhões de dólares em transações ilícitas.

O Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Irão (IRGC) e os seus intermediários foram responsáveis, sozinhos, por mais de metade de todo o valor em cripto recebido por entidades sancionadas no final de 2025, totalizando aproximadamente 3 mil milhões de dólares.

Relatórios recentes também abordaram como a maior plataforma de negociação do Irão, a Nobitex, processou centenas de milhões para o regime iraniano apesar das sanções, conseguindo inclusive movimentar ativos durante um período em que a internet esteve em baixo.

Como referiu um funcionário do Tesouro dos EUA, “o regime optou por utilizar tecnologias de ativos digitais para os seus próprios fins, inclusive para contornar sanções”.

A economia de guerra da Rússia também está fortemente dependente de cripto. Um relatório do Royal United Services Institute (RUSI) de fevereiro de 2026 explica que “a liquidação viabilizada por cripto está agora enraizada no modelo de contratação pública da Rússia”, ligando métodos de pagamento alternativos a cadeias de abastecimento atingidas por sanções.

A Rússia legalizou os pagamentos cripto transfronteiriços em 2024 e, em 2025, já tinha estruturado todo um sistema próprio (como a stablecoin A7A5) para negociar internacionalmente fora do sistema bancário SWIFT. Por exemplo, uma criptomoeda com apoio estatal chamada A7A5 (uma stablecoin indexada ao rublo) processou mais de 93,3 mil milhões de dólares em comércio em menos de um ano, servindo de ponte para as empresas russas.

O pacote de sanções da UE de abril de 2026 proibiu explicitamente as transações na stablecoin RUBx e na CBDC de rublo digital (as ferramentas cripto apoiadas pelo Estado russo) precisamente para contrariar esta tendência.

Estes esforços ao nível estatal são complementados pelo financiamento de cibercrimes através de cripto. A Coreia do Norte, que sofre pesadas sanções devido aos seus programas de armamento, tem financiado grande parte do seu regime através de pirataria informática em cripto. A Chainalysis relata que, em 2025, piratas informáticos norte-coreanos roubaram mais de 2 mil milhões de dólares em criptomoedas para o regime. (O infame Lazarus Group conseguiu, sozinho, angariar cerca de 1 milhão de dólares desde 2015 através de ataques e misturadores de dados).

Da mesma forma, grupos terroristas e fações extremistas solicitam doações em cripto na internet. Existem dezenas de organizações militantes na Síria e na Ucrânia que foram monitorizadas a recolher cripto, desde combatentes do HTS na Síria até milícias pró-Rússia no Donbas, angariando milhões para armas e propaganda.

Isto levou os reguladores a alertar os dadores: a diligência devida é crítica, uma vez que algumas carteiras cripto alegadamente humanitárias podem, na verdade, financiar grupos sancionados ou ilegais.

As autoridades internacionais estão a responder. Em 2025 e 2026, os EUA, a UE e o Reino Unido alargaram as sanções relacionadas com cripto. O 20.º pacote da UE contra a Rússia (abril de 2026) impõe, pela primeira vez, uma proibição a nível setorial de todas as plataformas de negociação e plataformas DeFi baseadas na Rússia, e designa explicitamente os novos instrumentos cripto estatais da Rússia (RUBx e a CBDC de rublo digital) como ilícitos.

O Reino Unido também proibiu recentemente entidades britânicas de negociar com grandes redes cripto russas (como a plataforma de negociação quirguiz Meer, ligada à A7A5), congelando quaisquer ativos e cortando as relações de correspondência bancária. O Tesouro dos EUA em 2026 chegou a sancionar a maior plataforma de negociação do Irão (Nobitex), explicitamente por permitir transações a instituições sancionadas. Tais medidas significam que os ativos cripto são agora um alvo primordial de sanções.

Tabela: Fluxos Notáveis de Cripto em Contextos de Guerra ou Sanções

Região / IntervenienteAtividade CriptoDetalhes (2022-2025)
Rússia (2025)Stablecoin indexada ao rublo (A7A5)$93,3 mil milhões processados (comércio transfronteiriço)
Rússia (2025)Plataforma de negociação quirguiz Grinex$4,76 mil milhões processados
Rússia (2025)Plataforma de negociação quirguiz Meer$305 milhões processados
Irão (2025)Transferências cripto do IRGC / Banco Central$3 mil milhões enviados em cripto (4.º trimestre relacionado com o IRGC)
Coreia do Norte (2025)Roubos de cripto (piratas informáticos estatais)$2 mil milhões roubados (alimentaram programas de armas de destruição maciça)
Ucrânia (2022)Doações em cripto (governo e instituições de caridade)$56 milhões doados para carteiras do governo (fevereiro a março de 2022)
Turquia/Síria (2023)Doações em cripto para sismos$5,9 milhões angariados para ajuda humanitária (fevereiro de 2023)
Venezuela (2025)Adoção de cripto (economia sancionada)Cripto é uma tábua de salvação crucial face à hiperinflação; forte uso de P2P

Cripto nas Zonas de Guerra da Ucrânia e Conflitos no Médio Oriente

Em zonas de guerra ativas, a cripto serve um propósito de dupla face. O conflito na Ucrânia registou uma enorme vaga de apoio público em cripto por parte de pessoas comuns. No início de 2023, a empresa de análise de blockchain Elliptic estimou que mais de 212 milhões de dólares em doações cripto tinham sido enviados para os esforços de guerra ucranianos (cerca de 80 milhões de dólares desse valor para o governo), o que ajudou a comprar capacetes, drones, equipamento médico e todo o tipo de outros mantimentos de que o esforço de guerra precisava.

Isto deveu-se à natureza descentralizada e transfronteiriça da cripto, que a tornou uma ferramenta útil para fazer chegar dinheiro a zonas de conflito rapidamente.

Além disso, o Fórum Económico Mundial sublinhou que, em 2022, a Ucrânia ocupava o terceiro lugar mundial em termos de adoção de cripto, com muitas pessoas a utilizá-la para proteger as suas poupanças contra a inflação e para pagar bens essenciais à medida que os bancos fechavam.

No entanto, os opositores da Ucrânia também têm utilizado cripto. Os mesmos relatórios da Chainalysis e da Elliptic revelaram que cerca de 5,4 milhões de dólares foram angariados por milícias pró-Rússia e grupos de propaganda em 2022 e 2023. Isto expõe a natureza ambígua da cripto em zonas de guerra.

Enquanto os responsáveis ucranianos agradecem publicamente aos dadores de cripto por ajudarem a proteger a sua liberdade, os peritos em segurança também alertam contra os fluxos sem controlo, observando que apenas uma minoria destes fundos tem origens ilícitas, mas que uma monitorização forte continua a ser importante.

Noutros locais, no conflito entre Israel e o Hamas e na guerra da Síria, a cripto também tem desempenhado um papel crescente. Uma análise indiana (ICWA) relatou que os grupos militantes de Gaza acumularam mais de 130 milhões de dólares em cripto desde 2021 (com o Hamas a deter cerca de 41 milhões de dólares).

Na Síria, a Chainalysis observou que intervenientes não estatais (como o Hay’at Tahrir al-Sham) têm usado as redes sociais para solicitar doações em cripto, particularmente durante grandes ofensivas. Até alguns apelos humanitários (como os destinados a refugiados sírios em campos de refugiados) foram associados a angariações de fundos através de carteiras cripto.

Entretanto, a ONU e várias ONG começaram a aceitar cripto para ajuda humanitária a refugiados; por exemplo, o ACNUR aceita agora doações em BTC e ETH para refugiados da Ucrânia.

Cripto em Zonas de Guerra como Ajuda Humanitária e Resiliência

As criptomoedas também proporcionam alívio em zonas de guerra e nações sob embargo. O sismo na Turquia e na Síria em fevereiro de 2023 foi um bom exemplo disso. Em poucas semanas, 5,9 milhões de dólares em cripto fluíram para ONG de ajuda humanitária e campanhas governamentais (como o Crescente Vermelho Turco e a Save the Children).

Dado que a cripto pode ser transferida de forma rápida e fácil, mesmo quando o sistema bancário está inoperacional ou sob sanções (como aconteceu na Síria, onde o OFAC chegou a emitir uma licença de ajuda humanitária para permitir tais transferências), e por ser transfronteiriça, revelou-se a forma ideal de fazer chegar ajuda a quem precisava.

Da mesma forma na Ucrânia, a Chainalysis observa que milhões de ucranianos estão a utilizar cripto para fazer doações, enviar remessas e até manter algumas das suas poupanças seguras, tudo isto enquanto a guerra decorre e o sistema bancário está um caos.

Para lá de todos estes conflitos, existem também países sob cerco económico, onde as pessoas utilizam cripto como forma de governar a vida. Na Venezuela, por exemplo, que está sob sanções e a sofrer de hiperinflação há muito tempo, as pessoas recorreram a plataformas globais de negociação de cripto e a transações diretas entre utilizadores (P2P) para evitar que as suas poupanças fossem pulverizadas.

Apesar de o governo venezuelano ter tentado lançar a sua própria cripto, o token Petro, que acabou por ser descontinuado, os venezuelanos comuns continuaram a preferir o uso de stablecoins e Bitcoin em plataformas estrangeiras.

Este é apenas mais um exemplo da dupla realidade que se verifica no universo cripto. Os governos tentam exercer controlo sobre ele, mas os cidadãos usam-no como uma forma de se manterem à tona face à crise económica.

Análise e Visão de Especialistas sobre Cripto em Zonas de Guerra

Os especialistas afirmam que o impacto das criptomoedas nestas regiões vai muito além de ser apenas uma forma de ocultar riqueza. Quando os canais bancários tradicionais colapsam, as stablecoins tornam-se uma salvação.

As stablecoins indexadas ao dólar americano, como o Tether, estão agora a ser utilizadas para liquidar diversos negócios transfronteiriços, mesmo para entidades sancionadas. Entretanto, tokens personalizados, como o A7A5 da Rússia, estão efetivamente a ser desenhados para criar uma economia paralela que o Ocidente não consegue tocar.

A Chainalysis e outros analistas apontam que, nestas zonas de conflito, existe uma “realidade dividida”. De facto, os agentes ilícitos utilizam a cripto para contornar a lei, mas o mesmo fazem as pessoas comuns e os governos que precisam desesperadamente dela. Um relatório recente da Chainalysis afirma que “os mercados de criptomoedas não são suficientemente líquidos para suportar uma evasão de sanções generalizada e sistemática”, mesmo com o crescimento de redes de evasão específicas.

O que isto significa é que a cripto continua, na sua maioria, a complementar as finanças tradicionais, mas o seu papel está expandir-se de igual forma. A última vaga de sanções da UE contra a Rússia reconheceu mesmo a importância crescente da cripto ao visar categorias inteiras de infraestruturas de evasão, em vez de apenas entidades individuais.

Os reguladores estão a começar a controlar os desafios que isto coloca. Além das sanções, existem iniciativas como a lei de Mercados de Criptoativos (MiCA) da UE para garantir o cumprimento das regras e novas diretrizes do FMI.

Até algumas das principais organizações de ajuda humanitária estão a render-se à cripto. A CARE International gere um “Fundo Cripto para Ajuda Humanitária” e agências da ONU aceitam doações em Bitcoin ou Ethereum para ajudar refugiados. No entanto, os especialistas alertam que a volatilidade da cripto e o potencial de utilização indevida exigem um cuidado redobrado e total transparência na distribuição da ajuda.

Conclusão

A cripto em zonas de guerra é uma realidade com a qual teremos de lidar. As criptomoedas estão a ser arrastadas para economias de guerra e estratégias de evasão de sanções como nunca antes. Da mesma forma, estão a proporcionar uma nova via para a ajuda humanitária chegar a áreas de crise.

Contudo, devido à sua natureza de dupla utilização, servindo tanto para o bem como para o mal, há necessidade de manter uma vigilância apertada.

A cripto precisa de ser aproveitada pela sua velocidade e transparência na ajuda, mas também regulada para impedir que caia nas mãos erradas.

Como sempre, a devida diligência e a supervisão regulamentar são importantes para garantir que as criptomoedas nessas regiões ajudem as pessoas que precisam, em vez de darem aos agentes ilícitos uma nova forma de contornar o sistema.

Glosário

Blockchain/Criptomoeda: moedas digitais (como Bitcoin ou Ethereum) que são armazenadas num registo público.

Stablecoin: um tipo de token cripto que está ligado ao valor de algo estável (normalmente o Dólar Americano). Os exemplos incluem moedas como Tether (USDT) e USD Coin.

Sanções: penalizações económicas que os países impõem a outros países ou grupos para os punir ou isolar.

Intermediário OTC (Over-the-Counter): Uma pessoa ou serviço que facilita grandes transações cripto fora das plataformas de negociação habituais, frequentemente utilizado por empresas.

ONG (Organização Não Governamental): uma organização independente (como a Cruz Vermelha ou agências da ONU) que presta ajuda humanitária em situações de emergência. Muitas destas ONG aceitam agora doações em cripto em situações desesperadas.

Carteira: uma conta digital para armazenar a sua cripto.

Moeda Fiduciária: o dinheiro tradicional emitido pelo governo (como USD ou EUR).

Perguntas Frequentes Sobre Cripto em Zonas de Guerra

Como é que as criptomoedas ajudam os países sancionados a contornar as restrições?

Para países sancionados como o Irão e a Rússia, as transações cripto oferecem uma saída fácil do sistema bancário tradicional. Eles utilizam moedas digitais e stablecoins para movimentar ativos e pagar importações. Também utilizam a mistura de dados em blockchain e plataformas de negociação estrangeiras para encobrir as suas pistas.

As pessoas em zonas de guerra estão a utilizar as criptomoedas em larga escala?

Sim. Em países como a Ucrânia e a Venezuela, que enfrentam conflitos ou sanções, muitas pessoas comuns estão a recorrer à cripto em zonas de guerra para fazer pagamentos e poupar o seu dinheiro.

Por exemplo na Ucrânia, acredita-se que algures entre 15 e 20% das pessoas possuam algum tipo de cripto. Alguns usam-na para enviar dinheiro para familiares e amigos que trabalham no estrangeiro, outros fazem compras com ela ou guardam-na como uma aposta segura contra a inflação elevada e os problemas bancários gerais que enfrentam.

As doações em cripto conseguem chegar às pessoas que precisam delas?

Conseguem, mas com cuidado. A blockchain garante transferências rápidas e sem fronteiras para instituições de caridade validadas e fundos governamentais, como se viu na Ucrânia (56 milhões de dólares em 2022) e na ajuda à Turquia e Síria (5,9 milhões de dólares em 2023). No entanto, os dadores devem verificar os endereços e evitar carteiras ligadas a grupos sancionados ou ilícitos.

A cripto é uma aposta “segura” em zonas de guerra?

A cripto pode ser útil, mas acarreta alguns riscos. As transações podem ser rápidas e podem até funcionar em locais onde os bancos não estão a operar, mas é preciso estar ciente de questões como a volatilidade dos preços, potenciais fraudes e a incerteza regulamentar. Ao utilizá-la em contextos de guerra, opte por plataformas reputadas, verifique bem o endereço de quem vai receber e fique atento às listas de sanções.

Referências

Reuters

BCL

RUSI

Chainalysis

OFAC

World Economic Forum

UNODC

Aviso Legal: Esta análise baseia-se em dados e relatórios de especialistas até meados de 2026. No entanto, os mercados de criptomoedas e a geopolítica são inerentemente voláteis, pelo que os leitores devem efetuar a devida diligência antes de tomarem quaisquer decisões importantes.

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